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A revolta contra a sociedade em O Mal Estar na Civilização.


Para além da liquidez pós moderna, há uma espécie de insatisfação generalizada que satura o ar a nossa volta. Uma espécie de pessimismo frente a sociedade e sua forma de estruturação. Mas esta insatisfação seria um fenômeno exclusivo dos tempos atuais?
Como foi que tantas pessoas vieram a assumir essa estranha atitude de hostilidade para com a civilização? Acredito que seu fundamento consistiu numa longa e duradoura insatisfação com o estado de civilização então existente e que, nessa base, se construiu uma condenação dela, ocasionada por certos acontecimentos históricos específicos. Penso saber quais foram a última e a penúltima dessas ocasiões. Não sou suficientemente erudito para fazer remontar a origem de sua cadeia o mais distante possível na história da espécie humana, mas um fator desse tipo, hostil à civilização, já devia estar em ação na vitória do cristianismo sobre as religiões pagãs, de uma vez que se achava intimamente relacionado à baixa estima dada à vida terrena pela doutrina cristã. A penúltima dessas ocasiões se instaurou quando o progresso das viagens de descobrimento conduziu ao contacto com povos e raças primitivos. Em conseqüência de uma observação insuficiente e de uma visão equivocada de seus hábitos e costumes, eles apareceram aos europeus como se levassem uma vida simples e feliz, com poucas necessidades, um tipo de vida inatingível por seus visitantes com sua civilização superior. A experiência posterior corrigiu alguns desses julgamentos. Em muitos casos, os observadores haviam erroneamente atribuído à ausência de exigências culturais complicadas o que de fato era devido à generosidade da natureza e à facilidade com que as principais necessidades humanas eram satisfeitas. A última ocasião nos é especialmente familiar. Surgiu quando as pessoas tomaram conhecimento do mecanismo das neuroses, que ameaçam solapar a pequena parcela de felicidade desfrutada pelos homens civilizados. Descobriu-se que uma pessoa se torna neurótica porque não pode tolerar a frustração que a sociedade lhe impõe, a serviço de seus ideais culturais, inferindo-se disso que a abolição ou redução dessas exigências resultaria num retorno a possibilidades de felicidade.
 Existe ainda um fator adicional de desapontamento. Durante as últimas gerações, a humanidade efetuou um progresso extraordinário nas ciências naturais e em sua aplicação técnica, estabelecendo seu controle sobre a natureza de uma maneira jamais imaginada. As etapas isoladas desse progresso são do conhecimento comum, sendo desnecessário enumerá-las. Os homens se orgulham de suas realizações e têm todo direito de se orgulharem. Contudo, parecem ter observado que o poder recentemente adquirido sobre o espaço e o tempo, a subjugação das forças da natureza, consecução de um anseio que remonta a milhares de anos, não aumentou a quantidade de satisfação prazerosa que poderiam esperar da vida e não os tornou mais felizes. Reconhecendo esse fato, devemos contentar-nos em concluir que o poder sobre a natureza não constitui a única precondição da felicidade humana, assim como não é o único objetivo do esforço cultural. Disso não devemos inferir que o progresso técnico não tenha valor para a economia de nossa felicidade. Gostaríamos de perguntar: não existe, então, nenhum ganho no prazer, nenhum aumento inequívoco no meu sentimento de felicidade, se posso, tantas vezes quantas me agrade, escutar a voz de um filho meu que está morando a milhares de quilômetros de distância, ou saber, no tempo mais breve possível depois de um amigo ter atingido seu destino, que ele concluiu incólume a longa e difícil viagem? Não significa nada que a medicina tenha conseguido não só reduzir enormemente a mortalidade infantil e o perigo de infecção para as mulheres no parto, como também, na verdade, prolongar consideravelmente a vida média do homem civilizado? Há uma longa lista que poderia ser acrescentada a esse tipo de benefícios, que devemos à tão desprezada era dos progressos científicos e técnicos. Aqui, porém, a voz da crítica pessimista se faz ouvir e nos adverte que a maioria dessas satisfações segue o modelo do ‘prazer barato’ louvado pela anedota: o prazer obtido ao se colocar a perna nua para fora das roupas de cama numa fria noite de inverno e recolhê-la novamente. Se não houvesse ferrovias para abolir as distâncias, meu filho jamais teria deixado sua cidade natal e eu não precisaria de telefone para ouvir sua voz; se as viagens marítimas transoceânicas não tivessem sido introduzidas, meu amigo não teria partido em sua viagem por mar e eu não precisaria de um telegrama para aliviar minha ansiedade a seu respeito. Em que consiste a vantagem de reduzir a mortalidade infantil, se é precisamente essa redução que nos impõe a maior coerção na geração de filhos, de tal maneira que, considerando tudo, não criamos mais crianças do que nos dias anteriores ao reino da higiene, ao passo que, ao mesmo tempo, criamos condições difíceis para nossa vida sexual no casamento e provavelmente trabalhamos contra os efeitos benéficos da seleção natural? Enfim, de que nos vale uma vida longa se ela se revela difícil e estéril em alegrias, e tão cheia de desgraças que só a morte é por nós recebida como uma libertação?
Parece certo que não nos sentimos confortáveis na civilização atual, mas é muito difícil formar uma opinião sobre se, e em que grau, os homens de épocas anteriores se sentiram mais felizes, e sobre o papel que suas condições culturais desempenharam nessa questão. Sempre tendemos a considerar objetivamente a aflição das pessoas – isto é, nos colocarmos, com nossas próprias necessidades e sensibilidades, nas condições delas, e então examinar quais as ocasiões que nelas encontraríamos para experimentar felicidade ou infelicidade. Esse método de examinar as coisas, que parece objetivo por ignorar as variações na sensibilidade subjetiva, é, naturalmente, o mais subjetivo possível, de uma vez que coloca nossos próprios estados mentais no lugar de quaisquer outros, por mais desconhecidos que estes possam ser. A felicidade, contudo, é algo essencialmente subjetivo. Por mais que nos retraiamos com horror de certas situações – a de um escravo de galé na Antiguidade, a de um camponês durante a Guerra dos Trinta Anos, a de uma vítima da Inquisição, a de um judeu à espera de um pogrom – para nós, sem embargo, é impossível nos colocarmos no lugar dessas pessoas – adivinhar as modificações que uma obtusidade original da mente, um processo gradual de embrutecimento, a cessação das esperanças e métodos de narcotização mais grosseiros ou mais refinados produziram sobre a receptividade delas às sensações de prazer e desprazer. Além disso, no caso da possibilidade mais extrema de sofrimento, dispositivos mentais protetores e especiais são postos em funcionamento. Parece-me improdutivo levar adiante esse aspecto do problema.



Segunda curta- Vivendo com depressão



Produzido e protagonizado pela atriz polonesa Katarzyna Napiórkowska, Vivendo com depressão é um curta-metragem autobiográfico sobre conviver todos os dias com sintomas nem sempre percebidos por amigos e parentes. “Você veste uma máscara social e continua entre pessoas. É o que todos fazem, é assim que tem de ser”, narra Katarzyna no filme de 3 minutos, com legendas em inglês. As cenas mostram a evolução dos sintomas, terminando com a mensagem de que é possível buscar ajuda, de que ignorar a doença pode ser a pior saída. O vídeo está disponível no canal da autora no YouTube, CallMeKat. Além do filme sobre depressão, Katarzyna produziu um curta sobre os sintomas do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e um vídeo informativo sobre conviver com uma pessoa com transtorno depressivo.

Confira o vídeo abaixo, com legenda automática em português.

Depressão altera a percepção de cores

Depressão-
Vicent Van Gogh


É bastante comum o relato da percepção de cores em algumas situação emocionais e a correlação entre enxergar o mundo em tonalidades cinzentas e humor deprimido não é nenhuma novidade. 
Mas um estudo realizado por cientistas da Universidade de Fribur, na Alemanha, comprova que a depressão causa alterações na percepção das cores, tornando o indivíduo menos sensível a contrastes. 

Talvez por este motivo as obras de Vincent Vang Gogh eram sempre cheias de cores tão intensas. 

Leia o estudo (disponível apenas em Inglês) “Seeing Gray When Feeling Blue? Depression Can Be Measured in the Eye of the Diseased“, 

Obesidade na Psicanálise


Venus- por Fernando Botero
Vênus, por Fernando Botero- 2005

Tão recorrente na atualidade, o tema obesidade parece nunca se esgotar, permitindo uma ampla e variada possibilidade de abordagens diferentes. Mas ainda é pouco comum ver a análise desse assunto sob o ponto de vista psicanalítico e geralmente o papel da mente no processo de obesidade acaba sendo negligenciado.
Nesse sentido. o estudo de dois casos publicados pela psicoterapeuta e psicanalista Maria Alice Azevedo, em colaboração com a
Dra Cleunice Spadotto, lança luz sobre o enfoque psicológico deste problema, sob a abordagem psicossomática.

Confira o artigo aqui.

Estudo psicológico da obesidade: dois casos clínicos



Por que sonhamos?

Por que sonhamos?


“O sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente”. 
(FREUD, 1898 e1899)
Embora a ciência ainda não tenha uma resposta conclusiva, a psicanálise nos diz que dormir resulta em sonhar e sonhar é uma necessidade neurofisiológica. Estudos do campo da Psicologia têm determinado que a privação do sono pode ocasionar sérias consequências.

Para entender melhor o sonho, a psicologia se ocupou de entender o funcionamento do sono e acabou descobrindo, por exemplo, que o mesmo pode ser dividido em etapas (REM-NREM)

As descobertas de Freud, de que os sonhos têm um conteúdo psicológico fundamental, revolucionaram o estudo da mente. Antes, os sonhos eram tidos como meras junções de imagens desconexas, provocados por estímulos fisiológicos.
Depois disso compreendeu-se que sonhar é uma linguagem simbólica, pela qual se manifesta nosso inconsciente – espécie de porão da mente onde habitam fantasmas psíquicos, como conflitos não resolvidos e desejos reprimidos, que acabam governando todo o nosso comportamento.

Acredita-se também que, com isso, o sonho tenha uma função auto-reguladora de equilíbrio psicológico. “É através dele que fazemos a digestão dos acontecimentos do dia”, afirma Marion Rauscher Gallbach, do Instituto de Psicologia da USP. Já do ponto de vista neurofisiológico, existem outras funções cerebrais que seriam despertadas quando sonhamos. “Uma das principais é a manutenção da memória. Sonhar tanto guarda lembranças em arquivos de longa duração, quanto apaga informações não usadas”, diz Rubens Reimão, neurologista do Hospital das Clínicas de São Paulo.



Esquizofrenia- 10 anos de luta

Fotógrafa conta como venceu batalha contra esquizofrenia após 10 anos sem sair de casa

A fotógrafa britânica Alice Evans estava na universidade quando teve o primeiro episódio de esquizofrenia. Depois do diagnóstico, ela não saiu da casa dos pais durante dez anos.

Eu tinha cerca de 20 anos e estudava na universidade quando fiquei muito mal. Tinha vindo de um vilarejo rural em Devon e era minha primeira vez em uma cidade.
Quando cheguei à universidade foi assustador, mas fiz alguns amigos e estava gostando do curso de teatro. Mas não conseguia me livrar dos pensamentos depressivos que tive durante minha adolescência.
Tinha três empregos para pagar pela faculdade e ainda tinha que estudar. Tudo isso foi muito pesado.
Com o passar do tempo parei de dormir e foi aí que os problemas realmente começaram.
Senti como se o mundo tivesse perdido as cores. É a única forma de descrever. Tudo se transformou em um tom tedioso de cinza.
Pensamentos e frases começaram a desaparecer de minha mente. Eu pensava em algo e deixava ir em embora. Puf! E não conseguia falar. As palavras simplesmente não saíam da minha boca.
Eu tinha medo o tempo todo, especialmente quando comecei a ouvir outras vozes no rádio e na TV. Eu não sabia o que estava acontecendo e não tinha ideia do quanto eu já estava doente.
Um fim de semana minha tia e meu tio me visitaram e, enquanto andávamos pela cidade, notei que não havia pessoas, de repente todas elas desapareceram e todos os prédios tinham desabado. Eu estava andando sozinha em uma cidade abandonada.
Claro que isto não estava acontecendo de verdade, mas quando você está no meio de um episódio psicótico aquela experiência do mundo é sua realidade. Não é como se estalando os dedos você pudesse voltar ao normal.
Aquele período da minha vida é incrivelmente nebuloso para mim. Eu estava tão confusa, assustada e cansada que realmente não me lembro de muita coisa.
E, porque eu não conseguia falar, não conseguia dizer para meus amigos e família o quanto a situação estava grave. Na verdade, acho que nem percebi. Quando você vive a psicose, na maior parte do tempo você está assustada demais para falar.
Um dia saí de casa, desorientada, sem saber onde estava indo. Sem ninguém para ajudar, vaguei pelas ruas da cidade sozinha e confusa, entrando em ônibus para tentar ir para casa sem saber para onde eles iam.
De alguma forma – até hoje não sei como – alguns amigos me encontraram angustiada e me levaram para a casa dos meus pais em Devon. Depois disso, eu não saí da casa durante dez anos.

Médicos

Meus pais me levaram para um psiquiatra que conversou gentilmente comigo e me deu remédios para diminuir os chamados sintomas "positivos" da esquizofrenia. Entre estes estão alucinações, ilusões e a confusão que eu estava tendo.
Foi muito bom ouvir o diagnóstico. Esquizofrenia. Pelo menos eu sabia com o que tinha que lidar, tinha uma resposta e poderia seguir em frente.
Os medicamentos ajudaram quase imediatamente, mas eu realmente queria conversar com alguém em sessões de terapia. Naquela época havia uma falta de verbas para este tipo de tratamento na rede pública, algo que continua sendo um problema para pessoas com problemas mentais hoje.
Com os remédios, comecei a fazer pequenos avanços para me recuperar. Comecei a falar um pouco e conseguia tomar banho, os cuidados pessoais básicos. Qualquer um que diga que doença mental não é debilitante está errado.
Infelizmente, os remédios tiveram um efeito na minha saúde física e, no fim do ano seguinte, eu tinha engordado 63,5 quilos devido aos efeitos colaterais.
Quando engordei tudo ficou mais difícil. Me sentia pouco atraente, relutante em ver meus amigos e ainda tinha medo de sair, então era difícil me exercitar.
Depois de alguns anos consegui um emprego em um pub local. Colocava os fones de ouvido e ouvia música enquanto trabalhava, então eu gostava muito. Mas, infelizmente, eu ficava doente e não conseguia manter um emprego. Tudo parecia ser um círculo vicioso.
Então, algo miraculoso aconteceu e eu acabei fazendo alguns amigos. Eu gostava muito de arte e música antes de ficar doente e minha mãe me convenceu a entrar em um grupo de teatro local.
Fiquei com medo da perspectiva de conhecer novas pessoas e atuar em um palco, mas todos me receberam bem e eu fiquei com um papel na peça que estavam encenando.
Não conseguia lembrar minhas falas, mas ninguém parecia se importar, os outros eram rápidos e engraçados e conseguiam preencher quando eu esquecia.
Meu melhor amigo no grupo, Tristan, me apoiava muito. Contei a ele que tinha esquizofrenia, ele já tinha passado por problemas de saúde mental também. Um dia ele anunciou que planejava entrar em uma universidade e sugeriu que eu tentasse também.
Estava aterrorizada, mas, com o apoio dele, tentei. Para minha surpresa, fui aceita na Escola de Arte Chelsea. Minha vida começou.

Fotos e filmes

Comecei a fazer fotos e filmes que expressavam como eu meu sentia. Me comunicava melhor por aqueles meios do que por palavras.
Outro passo importante foi que fui indicada para uma ótima equipe de saúde mental que me ajudou a obter o apoio que precisava para ser mais independente. E os funcionários e estudantes do colégio de arte me deram todo o apoio que precisava.
Dois anos atrás, tive outro pequeno problema quando meu ganho de peso me impediu de me recuperar totalmente de uma infecção e passei dez dias em cuidados intensivos com um caso grave de asma.
Felizmente fiquei bem depois, o bastante para uma cirurgia que me ajudou a perder peso, outro passo importante na minha recuperação.
Comecei a trabalhar como voluntária em uma instituição de caridade local voltada para saúde mental, o que me deu mais experiência. Eles me indicaram para terapia, o que foi fundamental na minha recuperação.
Mas a organização teve cortes de verbas e o escritório onde eu trabalhava foi fechado.
Antes disso, eles me ajudaram a tentar o mestrado na Royal College of Art e eu comecei a trabalhar como professora. Agora estou tentando o doutorado.
Precisei de 20 anos para chegar a este ponto da recuperação e ainda tenho problemas. Esquizofrenia é uma doença muito difícil de conviver e tenho sorte de ter o apoio da minha família e amigos.
Se pudermos desafiar o preconceito, conseguir investimento apropriado em saúde mental, demonstrar gentileza e dar apoio aos que enfrentam problemas como esquizofrenia, então as pessoas não serão abandonadas pelo tempo que eu fui.
Fonte: BBC