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A morte é um favor- por Hafez

A morte é um favor- por Hafez
A Morte é um favor para nós,
mas nossas balanças perderam seu equilíbrio.
A impermanência do corpo deveria dar-nos grande clareza,
aprofundando em nossos olhos e sentidos a maravilha
desta misteriosa existência que partilhamos e pela qual
certamente estamos apenas passando.
Se eu estivesse na Taberna essa noite pediria bebidas
e enquanto o Mestre enchesse os copos,
eu seria lembrado que tudo o que sei da vida e de mim próprio
é que nos somos apenas um vôo de vinho dourado entre seu jarro e seu copo.
Se eu estivesse na Taberna essa noitepagaria uma rodada
a todos neste mundo porque o nosso casamento com a
beleza cruel do tempo e do espaço não pode durar muito.
A Morte é um favor para nós, mas nossas mentes perderam seu equilíbrio.
A existência milagrosa e a impermanência da forma
sempre fazem dançar e cantar aos Iluminados.


Muḥammad Hāfez 

A revolta contra a sociedade em O Mal Estar na Civilização.


Para além da liquidez pós moderna, há uma espécie de insatisfação generalizada que satura o ar a nossa volta. Uma espécie de pessimismo frente a sociedade e sua forma de estruturação. Mas esta insatisfação seria um fenômeno exclusivo dos tempos atuais?
Como foi que tantas pessoas vieram a assumir essa estranha atitude de hostilidade para com a civilização? Acredito que seu fundamento consistiu numa longa e duradoura insatisfação com o estado de civilização então existente e que, nessa base, se construiu uma condenação dela, ocasionada por certos acontecimentos históricos específicos. Penso saber quais foram a última e a penúltima dessas ocasiões. Não sou suficientemente erudito para fazer remontar a origem de sua cadeia o mais distante possível na história da espécie humana, mas um fator desse tipo, hostil à civilização, já devia estar em ação na vitória do cristianismo sobre as religiões pagãs, de uma vez que se achava intimamente relacionado à baixa estima dada à vida terrena pela doutrina cristã. A penúltima dessas ocasiões se instaurou quando o progresso das viagens de descobrimento conduziu ao contacto com povos e raças primitivos. Em conseqüência de uma observação insuficiente e de uma visão equivocada de seus hábitos e costumes, eles apareceram aos europeus como se levassem uma vida simples e feliz, com poucas necessidades, um tipo de vida inatingível por seus visitantes com sua civilização superior. A experiência posterior corrigiu alguns desses julgamentos. Em muitos casos, os observadores haviam erroneamente atribuído à ausência de exigências culturais complicadas o que de fato era devido à generosidade da natureza e à facilidade com que as principais necessidades humanas eram satisfeitas. A última ocasião nos é especialmente familiar. Surgiu quando as pessoas tomaram conhecimento do mecanismo das neuroses, que ameaçam solapar a pequena parcela de felicidade desfrutada pelos homens civilizados. Descobriu-se que uma pessoa se torna neurótica porque não pode tolerar a frustração que a sociedade lhe impõe, a serviço de seus ideais culturais, inferindo-se disso que a abolição ou redução dessas exigências resultaria num retorno a possibilidades de felicidade.
 Existe ainda um fator adicional de desapontamento. Durante as últimas gerações, a humanidade efetuou um progresso extraordinário nas ciências naturais e em sua aplicação técnica, estabelecendo seu controle sobre a natureza de uma maneira jamais imaginada. As etapas isoladas desse progresso são do conhecimento comum, sendo desnecessário enumerá-las. Os homens se orgulham de suas realizações e têm todo direito de se orgulharem. Contudo, parecem ter observado que o poder recentemente adquirido sobre o espaço e o tempo, a subjugação das forças da natureza, consecução de um anseio que remonta a milhares de anos, não aumentou a quantidade de satisfação prazerosa que poderiam esperar da vida e não os tornou mais felizes. Reconhecendo esse fato, devemos contentar-nos em concluir que o poder sobre a natureza não constitui a única precondição da felicidade humana, assim como não é o único objetivo do esforço cultural. Disso não devemos inferir que o progresso técnico não tenha valor para a economia de nossa felicidade. Gostaríamos de perguntar: não existe, então, nenhum ganho no prazer, nenhum aumento inequívoco no meu sentimento de felicidade, se posso, tantas vezes quantas me agrade, escutar a voz de um filho meu que está morando a milhares de quilômetros de distância, ou saber, no tempo mais breve possível depois de um amigo ter atingido seu destino, que ele concluiu incólume a longa e difícil viagem? Não significa nada que a medicina tenha conseguido não só reduzir enormemente a mortalidade infantil e o perigo de infecção para as mulheres no parto, como também, na verdade, prolongar consideravelmente a vida média do homem civilizado? Há uma longa lista que poderia ser acrescentada a esse tipo de benefícios, que devemos à tão desprezada era dos progressos científicos e técnicos. Aqui, porém, a voz da crítica pessimista se faz ouvir e nos adverte que a maioria dessas satisfações segue o modelo do ‘prazer barato’ louvado pela anedota: o prazer obtido ao se colocar a perna nua para fora das roupas de cama numa fria noite de inverno e recolhê-la novamente. Se não houvesse ferrovias para abolir as distâncias, meu filho jamais teria deixado sua cidade natal e eu não precisaria de telefone para ouvir sua voz; se as viagens marítimas transoceânicas não tivessem sido introduzidas, meu amigo não teria partido em sua viagem por mar e eu não precisaria de um telegrama para aliviar minha ansiedade a seu respeito. Em que consiste a vantagem de reduzir a mortalidade infantil, se é precisamente essa redução que nos impõe a maior coerção na geração de filhos, de tal maneira que, considerando tudo, não criamos mais crianças do que nos dias anteriores ao reino da higiene, ao passo que, ao mesmo tempo, criamos condições difíceis para nossa vida sexual no casamento e provavelmente trabalhamos contra os efeitos benéficos da seleção natural? Enfim, de que nos vale uma vida longa se ela se revela difícil e estéril em alegrias, e tão cheia de desgraças que só a morte é por nós recebida como uma libertação?
Parece certo que não nos sentimos confortáveis na civilização atual, mas é muito difícil formar uma opinião sobre se, e em que grau, os homens de épocas anteriores se sentiram mais felizes, e sobre o papel que suas condições culturais desempenharam nessa questão. Sempre tendemos a considerar objetivamente a aflição das pessoas – isto é, nos colocarmos, com nossas próprias necessidades e sensibilidades, nas condições delas, e então examinar quais as ocasiões que nelas encontraríamos para experimentar felicidade ou infelicidade. Esse método de examinar as coisas, que parece objetivo por ignorar as variações na sensibilidade subjetiva, é, naturalmente, o mais subjetivo possível, de uma vez que coloca nossos próprios estados mentais no lugar de quaisquer outros, por mais desconhecidos que estes possam ser. A felicidade, contudo, é algo essencialmente subjetivo. Por mais que nos retraiamos com horror de certas situações – a de um escravo de galé na Antiguidade, a de um camponês durante a Guerra dos Trinta Anos, a de uma vítima da Inquisição, a de um judeu à espera de um pogrom – para nós, sem embargo, é impossível nos colocarmos no lugar dessas pessoas – adivinhar as modificações que uma obtusidade original da mente, um processo gradual de embrutecimento, a cessação das esperanças e métodos de narcotização mais grosseiros ou mais refinados produziram sobre a receptividade delas às sensações de prazer e desprazer. Além disso, no caso da possibilidade mais extrema de sofrimento, dispositivos mentais protetores e especiais são postos em funcionamento. Parece-me improdutivo levar adiante esse aspecto do problema.



Garotos do Swing- a rebeldia sob o regime do nazismo




Do livro A Vida no Reich (parte de uma coletânea da revista História Viva) o fragmento abaixo narra brevemente a rebeldia dos Garotos do Swing, conhecidos por não se rederem facilmente ao que lhes era ditado na época. 

Leia um trecho do capítulo 3- O mito da raça superior

Enquanto toda a Alemanha parecia marchar em compasso atrás de seu líder, havia um pequeno, mas significativo, número de inconformados que escolheram dançar em outro ritmo. Apesar de ser necessária considerável dose de coragem para zombar abertamente dos ditames de um regime totalitário, os “garotos do swing”, como passaram a ser conhecidos, não eram estrategistas políticos. Nem todos eram, de fato, opositores do regime. Muitos deles eram, simplesmente, adolescentes determinados a exercer seu direito de fazer o que bem entendessem. Eles se ressentiam de receber ordens quanto ao que deveriam vestir, como cortar o cabelo e o que deveriam ouvir. O fato de estarem vivendo sob o regime mais repressor dos tempos modernos não os impediu de afirmar sua individualidade. 
Em meados da década de 1930, uma nova forma de jazz americano, mais acelerado e sincopado, eletrificava as ondas das rádios por todo o mundo e enchia as pistas dos salões de baile e clubes noturnos. Era o chamado swing, e a juventude alemã não via motivo para apenas ficar olhando o mundo livre se divertir dançando Jitterbug. O regime fizera saber que não aprovava a “música da floresta” e o que vinha junto: um visual mais ousado e colorido, visto como espalhafatoso e decadente. Para o governo, ambos eram parte de uma conspiração global para minar o nacional-socialismo e contaminar a cultura ariana. 
A música era condenada por, supostamente, encorajar o sexo casual, a bebida em excesso e relacionamentos íntimos inter-raciais. Então, os fãs de swing disfarçavam, fazendo festas em casas privadas e nos porões de bares e cafés, mas continuavam a ostentar um desafio público ao se vestir de modo chamativo e com penteados inspirados em artistas de cinema americanos. Os meninos penteavam o cabelo comprido para trás com brilhantina, em contraste com o cabelo curto obrigatório da Juventude Hitlerista, enquanto as meninas adotavam penteados longos e adereçados, sem as tradicionais tranças usadas pelas moças do BDM. 
Os garotos do swing vinham, sobretudo, das classes médias e altas da sociedade alemã, o que lhes permitia usar roupas e acessórios relativamente caros e seguir um estilo de vida mais hedonista. Havia variações regionais, mas os rapazes geralmente se identificavam usando zoot suits que iam até os joelhos e jaquetas folgadas trespassadas com lapelas largas, que viam em fotografias de cantores de jazz americanos, talvez com uma sobrecasaca como aquelas usadas pelos valentões dos filmes de gângster, como Humphrey Bogart e James Cagney. As barras dobradas nas calças eram obrigatórias, assim como sapatos com solados claros e um cachimbo. Um chapéu estilo Homburg, com a aba larga voltada para cima, completava o tipo.
As moças copiavam os ícones da moda de Hollywood tanto quanto as restrições sobre roupas, sapatos e cosméticos importados permitiam. O uso de maquiagem era malvisto pelos nazistas, que a viam como sinal de promiscuidade sexual e declaravam ser contrária à aparência saudável natural da mulher ariana, mas as mulheres aplicavam tanto quanto podiam e em cores tão berrantes quanto conseguissem encontrar. Era sabido que as esposas dos oficiais nazistas continuavam a usar batom, esmalte, máscara e pó de arroz na presença de Hitler, e, assim, as moças do swing não viam por que deveria ser-lhes negada a oportunidade de ficarem atraentes. 
Em desafio aberto à estética nazista, as meninas do swing imitavam o estilo magro, andrógino e de cintura pinçada popularizado pelas modelos parisienses, e os ternos com calças que as estrelas de cinema Katherine Hepburn e Bette Davies tornaram parte essencial de sua imagem. As atrizes de Hollywood deram às garotas modelos de comportamento elegantes e confiantes. Elas se deixavam fotografar afetando uma pose despreocupada, portando uma longa piteira, que as moças alemãs também copiaram, em desafio ao desprezo de Hitler com o fumo (a Alemanha foi o primeiro país a promover uma campanha antitabaco, encampada pelos nazistas). Além das roupas, um hepcat usava também gírias próprias e caminhava pelas ruas com atitude tranquila e desleixada – a antítese da disciplina estrita instilada nas escolas hitleristas. 
Os jovens do swing, porém, eram mais que um movimento de rebeldia jovem ou uma moda provocativa. Eles eram fãs apaixonados de uma música que, para eles, simbolizava liberdade pessoal. O fato de ela ser efetivamente banida na Alemanha significava que o simples fato de a ouvirem na BBC ou em transmissões americanas os colocava sob o risco de serem presos. No entanto, a proibição tornava tudo mais atraente.


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Os pastores da noite - Jorge Amado



Pastoreávamos a noite como se ela fosse um rebanho de moças e conduzíamos aos portos da aurora com nossos cajados de aguardente, nossos toscos bastões de gargalhadas. E, se não fôssemos nós, pontais ao crepúsculo, vagarosos caminhantes dos prados do luar, como iria a noite – suas estrelas acendidas, suas esgarçadas nuvens, seu manto de negrume – como iria ela, perdida e solitária, acertar os caminhos tortuosos dessa cidade de becos e ladeiras? Em cada ladeira um ebó, em cada esquina um mistério, em cada coração noturno um grito de súplica, uma pena de amor, gosto de fome nas bocas de silêncio, e Exu solto na perigosa hora das encruzilhadas. Em nosso apascentar sem limites, íamos recolhendo a sede e a fome, as súplicas e os soluços, o estrume das dores e os brotos da esperança, os ais de amor e as desgarradas palavras doloridas, e preparávamos um ramalhete cor de sangue para com ele enfeitar o manto da noite. 

Do livro OS PASTORES DA NOITE, de Jorge Amado.

Dona doida- Adélia Prado

Dona Doida



Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso


com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.



Quando se pôde abrir as janelas,



as poças tremiam com os últimos pingos.



Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,



decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.



Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,



trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.



A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha, 



com sombrinha infantil e coxas à mostra. 



Meus filhos me repudiaram envergonhados,



meu marido ficou triste até a morte,



eu fiquei doida no encalço.



Só melhoro quando chove.


Dona doida- Adelia Prado

O triste fim de Policarpo Quaresma



O general nada tinha de marcial, nem mesmo o uniforme que talvez não possuísse. Durante toda a sua carreira militar, não viu uma única batalha, não tivera um comando, nada fizera que tivesse relação com a sua profissão e o seu curso de artilheiro. Fora sempre ajudante-de-ordens, assistente, encarregado disso ou daquilo, escriturário, almoxarife, e era secretário do Conselho Supremo Militar, quando se reformou em general. Os seus hábitos eram de um bom chefe de seção e a sua inteligência não era muito diferente dos seus hábitos. Nada entendia de guerras, de estratégia, de tática ou de história militar; a sua sabedoria a tal respeito estava reduzida às batalhas do Paraguai, para ele a maior e a mais extraordinária guerra de todos os tempos. O altissonante título de general, que lembrava cousas sobre-humanas dos Césares, dos Turennes e dos Gustavos Adolfos, ficava mal naquele homem plácido, medíocre, bonachão, cuja única preocupação era casar as cinco filhas e arranjar “pistolões” para fazer passar o filho nos exames do Colégio Militar. Contudo, não era conveniente que se duvidasse das suas aptidões guerreiras. Ele mesmo, percebendo o seu ar muito civil, de onde em onde, contava um episódio de guerra, uma anedota militar. “Foi em Lomas Valentinas”, dizia ele... Se alguém perguntava: “O general assistiu a batalha?” Ele respondia logo: “Não pude. Adoeci e vim para o Brasil, nas vésperas. Mas soube pelo Camisão, pelo Venâncio, que a cousa esteve preta.”