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A morte é um favor- por Hafez

A morte é um favor- por Hafez
A Morte é um favor para nós,
mas nossas balanças perderam seu equilíbrio.
A impermanência do corpo deveria dar-nos grande clareza,
aprofundando em nossos olhos e sentidos a maravilha
desta misteriosa existência que partilhamos e pela qual
certamente estamos apenas passando.
Se eu estivesse na Taberna essa noite pediria bebidas
e enquanto o Mestre enchesse os copos,
eu seria lembrado que tudo o que sei da vida e de mim próprio
é que nos somos apenas um vôo de vinho dourado entre seu jarro e seu copo.
Se eu estivesse na Taberna essa noitepagaria uma rodada
a todos neste mundo porque o nosso casamento com a
beleza cruel do tempo e do espaço não pode durar muito.
A Morte é um favor para nós, mas nossas mentes perderam seu equilíbrio.
A existência milagrosa e a impermanência da forma
sempre fazem dançar e cantar aos Iluminados.


Muḥammad Hāfez 

Sobre a Alegria e a Tristreza- Por Khalil Gibran


Sirin e Alkonos- os pássaros da alegria e da tristeza- Por Viktor Vasnetsov



A vossa alegria é a vossa tristeza mascarada. 
E o mesmo poço de onde sai o vosso riso esteve muitas vezes cheio de lágrimas.
 E como poderá ser de outra maneira? Quanto mais fundo a tristeza entrar no vosso ser, maior é a alegria que podereis conter. 
A taça que contém o vosso vinho não é a mesma que foi feita no forno do oleiro? 
E a lira que vos apanigua o espírito não é da mesma madeira com que foram esculpidas as facas? Quando estiverdes alegres, olhai bem dentro do vosso coração e descobrireis que só aquele que vos deu tristezas vos dá também alegrias. 
Quando estiverdes tristes, olhai novamente para dentro do vosso coração e vereis que na verdade estais a chorar por aquilo que foi a vossa alegria. 
Alguns de vós dizeis, "A alegria é maior que a tristeza" e outros dirão "Não, a tristeza é maior". 
Mas eu digo-vos que são inseparáveis. 
Juntas vêm, e, quando uma se senta junto de vós lembrai-vos que a outra está a dormir na vossa cama. 
Na verdade, estais suspensos como balanças entre a vossa tristeza e a vossa alegria. 
Só quando vos esvaziais ficais em equilíbrio e imóveis. 
Quando o guardador de tesouros vos erguer para pesar o seu ouro e a sua prata, nem a vossa alegria nem a vossa tristeza se devem alterar. 

(Trecho do livro O profeta, de Khalil Gibran)

Rumi- O mar é uma coisa, a espuma é outra










O mar é uma coisa, a espuma é outra;
Esquece a espuma e contempla o mar, noite e dia.
Tu olhas para a ondulação da espuma e não para o poderoso mar
Como barcos, somos jogados aqui e ali
Somos cegos, embora estejamos no brilhante oceano.
Ah! Tu que dormes no barco do corpo
Tu vês a água; contempla a Água das águas.
Sob a água que tu vês há outra água que a move
Dentro do espírito, há um espírito que o chama

(Rumi)



Sobre os homens, sobre as folhas




“Assim como a linhagem das folhas, assim é a dos homens.
Às folhas, atira-as o vento ao chão; mas a floresta no seu viço
faz nascer outras, quando sobrevêm a estação da primavera:
assim nasce uma geração de homens; e outra deixa de existir.”


HOMERO. Ilíada. Canto 6.
(Pg. 239 da edição Penguin & Companhia das Letras,
São Paulo, 2003. Tradução de Frederico Lourenço.)

O jardim- H.P Lovecraft





Existe um jardim antigo com o qual às vezes sonho,
sobre o qual o sol de maio despeja um brilho tristonho;
onde as flores mais vistosas perderam a cor, secaram;
e as paredes e as colunas são idéias que passaram.

Crescem heras de entre as fendas, e o matagal desgrenhado 
sufoca a pérgula, e o tanque foi pelo musgo tomado.
Pelas áleas silenciosas vê-se a erva esparsa brotar,
e o odor mofado de coisas mortas se derrama no ar.

Não há nenhuma criatura viva no espaço ao redor, 
e entre a quietude das cercas não se ouve qualquer rumor.
E, enquanto ando, observo, escuto, uma ânsia às vezes me invade
de saber quando é que vi tal jardim numa outra idade.

A visão de dias idos em mim ressurge e demora, 
quando olho as cenas cinzentas que sinto ter visto outrora.
E, de tristeza, estremeço ao ver que essas flores são
minhas esperanças murchas – e o jardim, meu coração

H.P Lovecraft

Como é por dentro outra pessoa?

O retrato de Fernando Pessoa- Por Almada Negreiros


Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento. 

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.


Fernando Pessoa