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A morte é um favor- por Hafez

A morte é um favor- por Hafez
A Morte é um favor para nós,
mas nossas balanças perderam seu equilíbrio.
A impermanência do corpo deveria dar-nos grande clareza,
aprofundando em nossos olhos e sentidos a maravilha
desta misteriosa existência que partilhamos e pela qual
certamente estamos apenas passando.
Se eu estivesse na Taberna essa noite pediria bebidas
e enquanto o Mestre enchesse os copos,
eu seria lembrado que tudo o que sei da vida e de mim próprio
é que nos somos apenas um vôo de vinho dourado entre seu jarro e seu copo.
Se eu estivesse na Taberna essa noitepagaria uma rodada
a todos neste mundo porque o nosso casamento com a
beleza cruel do tempo e do espaço não pode durar muito.
A Morte é um favor para nós, mas nossas mentes perderam seu equilíbrio.
A existência milagrosa e a impermanência da forma
sempre fazem dançar e cantar aos Iluminados.


Muḥammad Hāfez 

Garotos do Swing- a rebeldia sob o regime do nazismo




Do livro A Vida no Reich (parte de uma coletânea da revista História Viva) o fragmento abaixo narra brevemente a rebeldia dos Garotos do Swing, conhecidos por não se rederem facilmente ao que lhes era ditado na época. 

Leia um trecho do capítulo 3- O mito da raça superior

Enquanto toda a Alemanha parecia marchar em compasso atrás de seu líder, havia um pequeno, mas significativo, número de inconformados que escolheram dançar em outro ritmo. Apesar de ser necessária considerável dose de coragem para zombar abertamente dos ditames de um regime totalitário, os “garotos do swing”, como passaram a ser conhecidos, não eram estrategistas políticos. Nem todos eram, de fato, opositores do regime. Muitos deles eram, simplesmente, adolescentes determinados a exercer seu direito de fazer o que bem entendessem. Eles se ressentiam de receber ordens quanto ao que deveriam vestir, como cortar o cabelo e o que deveriam ouvir. O fato de estarem vivendo sob o regime mais repressor dos tempos modernos não os impediu de afirmar sua individualidade. 
Em meados da década de 1930, uma nova forma de jazz americano, mais acelerado e sincopado, eletrificava as ondas das rádios por todo o mundo e enchia as pistas dos salões de baile e clubes noturnos. Era o chamado swing, e a juventude alemã não via motivo para apenas ficar olhando o mundo livre se divertir dançando Jitterbug. O regime fizera saber que não aprovava a “música da floresta” e o que vinha junto: um visual mais ousado e colorido, visto como espalhafatoso e decadente. Para o governo, ambos eram parte de uma conspiração global para minar o nacional-socialismo e contaminar a cultura ariana. 
A música era condenada por, supostamente, encorajar o sexo casual, a bebida em excesso e relacionamentos íntimos inter-raciais. Então, os fãs de swing disfarçavam, fazendo festas em casas privadas e nos porões de bares e cafés, mas continuavam a ostentar um desafio público ao se vestir de modo chamativo e com penteados inspirados em artistas de cinema americanos. Os meninos penteavam o cabelo comprido para trás com brilhantina, em contraste com o cabelo curto obrigatório da Juventude Hitlerista, enquanto as meninas adotavam penteados longos e adereçados, sem as tradicionais tranças usadas pelas moças do BDM. 
Os garotos do swing vinham, sobretudo, das classes médias e altas da sociedade alemã, o que lhes permitia usar roupas e acessórios relativamente caros e seguir um estilo de vida mais hedonista. Havia variações regionais, mas os rapazes geralmente se identificavam usando zoot suits que iam até os joelhos e jaquetas folgadas trespassadas com lapelas largas, que viam em fotografias de cantores de jazz americanos, talvez com uma sobrecasaca como aquelas usadas pelos valentões dos filmes de gângster, como Humphrey Bogart e James Cagney. As barras dobradas nas calças eram obrigatórias, assim como sapatos com solados claros e um cachimbo. Um chapéu estilo Homburg, com a aba larga voltada para cima, completava o tipo.
As moças copiavam os ícones da moda de Hollywood tanto quanto as restrições sobre roupas, sapatos e cosméticos importados permitiam. O uso de maquiagem era malvisto pelos nazistas, que a viam como sinal de promiscuidade sexual e declaravam ser contrária à aparência saudável natural da mulher ariana, mas as mulheres aplicavam tanto quanto podiam e em cores tão berrantes quanto conseguissem encontrar. Era sabido que as esposas dos oficiais nazistas continuavam a usar batom, esmalte, máscara e pó de arroz na presença de Hitler, e, assim, as moças do swing não viam por que deveria ser-lhes negada a oportunidade de ficarem atraentes. 
Em desafio aberto à estética nazista, as meninas do swing imitavam o estilo magro, andrógino e de cintura pinçada popularizado pelas modelos parisienses, e os ternos com calças que as estrelas de cinema Katherine Hepburn e Bette Davies tornaram parte essencial de sua imagem. As atrizes de Hollywood deram às garotas modelos de comportamento elegantes e confiantes. Elas se deixavam fotografar afetando uma pose despreocupada, portando uma longa piteira, que as moças alemãs também copiaram, em desafio ao desprezo de Hitler com o fumo (a Alemanha foi o primeiro país a promover uma campanha antitabaco, encampada pelos nazistas). Além das roupas, um hepcat usava também gírias próprias e caminhava pelas ruas com atitude tranquila e desleixada – a antítese da disciplina estrita instilada nas escolas hitleristas. 
Os jovens do swing, porém, eram mais que um movimento de rebeldia jovem ou uma moda provocativa. Eles eram fãs apaixonados de uma música que, para eles, simbolizava liberdade pessoal. O fato de ela ser efetivamente banida na Alemanha significava que o simples fato de a ouvirem na BBC ou em transmissões americanas os colocava sob o risco de serem presos. No entanto, a proibição tornava tudo mais atraente.


Leia mais aqui. 

Os pastores da noite - Jorge Amado



Pastoreávamos a noite como se ela fosse um rebanho de moças e conduzíamos aos portos da aurora com nossos cajados de aguardente, nossos toscos bastões de gargalhadas. E, se não fôssemos nós, pontais ao crepúsculo, vagarosos caminhantes dos prados do luar, como iria a noite – suas estrelas acendidas, suas esgarçadas nuvens, seu manto de negrume – como iria ela, perdida e solitária, acertar os caminhos tortuosos dessa cidade de becos e ladeiras? Em cada ladeira um ebó, em cada esquina um mistério, em cada coração noturno um grito de súplica, uma pena de amor, gosto de fome nas bocas de silêncio, e Exu solto na perigosa hora das encruzilhadas. Em nosso apascentar sem limites, íamos recolhendo a sede e a fome, as súplicas e os soluços, o estrume das dores e os brotos da esperança, os ais de amor e as desgarradas palavras doloridas, e preparávamos um ramalhete cor de sangue para com ele enfeitar o manto da noite. 

Do livro OS PASTORES DA NOITE, de Jorge Amado.

O triste fim de Policarpo Quaresma



O general nada tinha de marcial, nem mesmo o uniforme que talvez não possuísse. Durante toda a sua carreira militar, não viu uma única batalha, não tivera um comando, nada fizera que tivesse relação com a sua profissão e o seu curso de artilheiro. Fora sempre ajudante-de-ordens, assistente, encarregado disso ou daquilo, escriturário, almoxarife, e era secretário do Conselho Supremo Militar, quando se reformou em general. Os seus hábitos eram de um bom chefe de seção e a sua inteligência não era muito diferente dos seus hábitos. Nada entendia de guerras, de estratégia, de tática ou de história militar; a sua sabedoria a tal respeito estava reduzida às batalhas do Paraguai, para ele a maior e a mais extraordinária guerra de todos os tempos. O altissonante título de general, que lembrava cousas sobre-humanas dos Césares, dos Turennes e dos Gustavos Adolfos, ficava mal naquele homem plácido, medíocre, bonachão, cuja única preocupação era casar as cinco filhas e arranjar “pistolões” para fazer passar o filho nos exames do Colégio Militar. Contudo, não era conveniente que se duvidasse das suas aptidões guerreiras. Ele mesmo, percebendo o seu ar muito civil, de onde em onde, contava um episódio de guerra, uma anedota militar. “Foi em Lomas Valentinas”, dizia ele... Se alguém perguntava: “O general assistiu a batalha?” Ele respondia logo: “Não pude. Adoeci e vim para o Brasil, nas vésperas. Mas soube pelo Camisão, pelo Venâncio, que a cousa esteve preta.”

Cabul no inverno- Ann Jones (Trecho)



Na manhã seguinte ao início dos bombardeios, desci para a rua como de costume e encontrei Sharif sentado no carro, estacionado junto ao meio-fio. Como é que eu poderia dizer "salaam aleikum"- a paz esteja com você- quando o meu país acabara de iniciar uma guerra? Em vez disso, cumprimentei: "Chittur asti?" - como vai?- e sentei no banco da frente. Ele não respondeu. Não retornou a saudação. Isso em uma língua e em um país em que saudações e rituais são uma cerimônia tão essencial à vida quanto o ar.  O choque do silêncio de Sharif deixou-me sem fôlego. Ele engatou a marcha e fomos sacolejando pela rua, passando pela mesquita onde o alto-falante berrava mais uma mensagem do mulá, embora a hora da oração já tivesse terminado há muito. "Hoje é um dia diferente", pensei, embora o sol fraco inundasse o ar empoeirado da manhã, espalhando a mesma tênue luminosidade cinzenta de ontem e anteontem. [...] Durante o período do Talibã, apolícia havia prendido Sharif 15 vezes poe ele trabalhar para a americana infiel. Toda vez, ele pagava para ser solto, e a cada vez o preço subia. Ele entregou à polícia 15 mil afeganis, tudo o que possuía. Na vez seguinte, Caroline pagou dois mil dólares para o soltarem. Mas eles o prenderam de novo e o mantiveram encarcerado por vinte dias. Acusaram-no de ser cristão. para fazê-lo confessar, haviam golpeado seus pés com cabos de aço e quebrado seus ossos. Seus pés ainda doíam, dizia. Usava sapatos grandes e largos. Mas durante esse tempo ele tomara conta de seu irmão mais novo, Kabir, ajudando-o na escola, levando-o às aulas de inglês, vigiando-o de perto e incitando-o a fazer as coisas que o próprio Sharif talvez tivesse feito se as coisas tivessem sido diferentes,
Inclinei-me e abaixei o volume do rádio:
- Você está muito zangado está manhã, Sharif - disse- É por causa dos bombardeios, não é?
Ele ficou quieto por um longo tempo, mordiscando a ponta dos bigodes.
-Vocês bombardeiam Afeganistão. Muitas pessoas mortas. Mas nós também felizes que o Talibã vai embora, Vocês dizem que nos ajudam. Agora vocês bombardeiam o Iraque. Vão pegar o petróleo. O próximo talvez Irã? Síria? Vocês bombardeiam nossos irmãos em toda parte?
-Eu não sei- respondi.
-Vocês já esquecem o Afeganistão- disse- Como antes. Os russos vão embora. Os americanos vão embora. O que é que vocês se importam com o Afeganistão? Nada. Deixa eles lutarem. Deixa eles se matarem. Vocês podem assistir. Que nem luta de galo no Babur's Garden.
[...]
-Vocês americanos são como crianças. Vocês pensam só no hoje. E os próximos anos? E as promessas que vocês fizeram no ano passado?
Então era isso. Ele acreditara na promessa americana, que dessa vez não abandonaríamos seu país, e nós o havíamos traído. Prometêramos uma ajuda que a maioria não conseguia ver. Prometêramos uma reconstrução que não aconteceu. Prometêramos uma paz que nunca veio.
-Eu sinto muito, Sharif-disse- Eu também estou zangada. A música subia a nossa volta, trazendo-me lágrimas aos olhos- Por favor, não fique zangado comigo, Sharif. Esse homem, o Bush, que faz essas coisas, ele não é meu presidente.


Cabul no inverno- Página 127 a 129

O tóxico gregário- Aldous Huxley




"Nas mais altas religiões de todo o mundo, a salvação e a iluminação são paras os indivíduos. O reino dos céus está no íntimo de uma pessoa, não dentro da demência coletiva de uma multidão. Cristo prometeu estar presente onde dois ou três se encontrassem reunidos. Nada disse sobre a sua presença onde milhares de pessoas se envenenam umas às outras com o tóxico gregário."

Admirável Mundo Novo- Aldous Huxley